quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Meu Deda

Deda, em Iugoslavo significa avô. E era assim que chamavamos o meu. Ele era pai do meu pai.
Praticamente, o único avô que eu tive...

Ele passou pela 2º guerra mundial e fez sua vida aqui no Brasil. Falava com um sotaque pesado e tinha sempre uma história para contar. E todo mundo ouvia. Ele me chamava de "caipira" toda vez que eu falava que não gostava de alguma comida. E achava ruim quando alguém deixasse resto no prato.

Ele sempre sentava no mesmo lugar. Ao chegar em sua casa ele estava ali. Sentado no canto direito do sofá maior, de frente para a TV, com o controle remoto na mão, mesmo que não escutasse nada. Prontamente oferecia para mudar de canal, para que eu assistisse minha "novela" (novela significava qualquer programa).

A casa dele era sinônimo de reunião familiar, muita fofoca, muita risada e muitas fotos. Os jantares de família... eu lembro de sempre sair da mesa passando mal de tanto comer... Já no final das festas ele ficava sentando na ponta da mesa, seu lugar cativo, desligava o aparelho auditivo e ficava só olhando tudo o que acontecia, fechado em seu mundinho.

Ele se foi numa época que me marcou muito. E eu fiquei MUITO tempo sem conseguir pensar no assunto sem chorar. Falar, então...

Faltava 1 mês para o meu casamento e num domingo ele se sentiu mal, passou pelo pronto socorro e o mandaram para casa (ainda acho que deviam ficar com ele lá para o tratamentro de um princípio de pneumonia). Com o susto, fui correndo com meu marido (namorado na época) fazer uma visita. Ele estava sentado no seu sofá, como sempre. Com as pernas em cima de um puff, coberto com mantas (era inverno). Ah, se eu soubesse que seria a última vez que o veria bem.... Ah, quanta coisa contaria, quanto conselho pediria e como ficaria ali... olhando sua pele flácida, seus olhos brilhando, a mão cheia de manchas... a pele fina... seu cheiro único...

Na quarta-feira seguinte estava marcada a degustação do jantar do meu casamento. Sai do trabalho, passei em casa para irmos todos ao buffet e recebemos a ligação de minha avó que meu avô não se sentia muito bem. Meu pai e meu irmão foram levá-lo ao pronto socorro enquanto minha mãe e eu iamos ao buffet, encontrar meu marido e meus sogros para a degustação. Parece ironico.

Meu pai pegou um taxi do hospital e veio para o buffet.

Meu avô ficou internado. Na quinta feira piorou. Foi para UTI.

Foi lá que o vi pelas últimas vezes. Preso a uma cama, cheio de aparelhos... inconsciente.

Eu queria lhe falar, fazer qualquer coisa para que ele entendesse e que lutasse. Ele precisava me ouvir, ele precisava melhorar e dividir comigo minha alegria, momento que ele sempre esperou. Mas eu não conseguia falar nada. As palavras simplesmente sumiram... Eu só ficava ali, olhando e chorando... Segurando sua mão inerte, fazendo carinho naquela pele fina, fina...

Ele estava cansado. Não quis vencer mais uma batalha. Faleceu no domingo, 3 semanas antes do meu casamento. A dor foi imensa. IMENSA. I-M-E-N-S-A.

Eu fui a primeira a chegar ao hospital, com meu marido. A espera pela chegada de mais alguém foi infinita. As lágrimas não davam conta de aliviar tamanho sofrimento. Foi horrível. Horrível.

Nesse mesmo dia, quase meia noite, quando meu pai chegou em casa (ele tinha ido resolver as questões burocráticas) pedimos uma pizza. Jantamos nós 5 (meus pais, eu e meus 2 irmãos) em silêncio.

O enterro foi igualmente terrível. Não consegui me segurar e chorei como um bebê pequeno... Não conseguia entender como ele me deixou na vespera do meu casamento. COmo ele não estaria lá comigo naquele dia....

Na última noite antes do meu casamento sonhei com ele. Ele me segurava a mão. Não me disse nada...

Na primeira visita à minha avó foi estranho não vê-lo ali em seu canto no sofá.

O tempo vai amenizando um pouco a dor. Mas não ameniza o amor. Não ameniza a saudade, nem a falta que ele faz.

Eu gostaria de tê-lo ao meu lado em vários momentos que vivi depois daquele dia. Queria vê-lo feliz com minha felicidade, queria seu abraço... suas palavras tão sábias...

Deda: sinto saudades. E são muitas...

3 comentários:

Rosana disse...

Adri,
Fiquei muuuuito emocionada com a sua história. É tão parecida com a do meu avô, eu comecei a relembrar... Chorei e me emocionei muito... Eu entendo totalmente o que vc sentiu, eles são realmente especiais e únicos, né! um grande beijo!

Marcela disse...

Drika,
Fiquei realmente comovida e emocionada com o relato de algo que foi tão marcante na sua vida. Muito lindo o seu amor pelo seu "Deda"
Bjs
Tchela

Edyenis Gonçalves disse...

Um Natal de muita felicidade e 2008 repleto de AMOR!!